Memórias em risco: preservação cultural nas ilhas da Baía de Todos os Santos

Por Ana Luísa Carvalho | 2026-07-20

As ilhas da Baía de Todos os Santos abrigam um mosaico de memórias que se expressam em festas, gastronomia, saberes de pesca e rituais religiosos. Mas transformação ambiental, turismo predatório e pressões econômicas ameaçam a preservação desses patrimônios imateriais. Nesta reportagem, percorremos comunidades insulares, conversamos com mestres e mestras de tradição, pesquisadores e gestores culturais para entender as estratégias de proteção e os desafios persistentes. Em Itaparica, a convivência entre moradores tradicionais e empreendimentos turísticos revela tensões históricas. Pescadores familiares relatam a diminuição de peixes de determinadas espécies e a perda de pontos de pesca tradicionais devido a expansão náutica e alterações no estuário. Ao mesmo tempo, a valorização turística traz renda para alguns, mas altera a paisagem cultural. Festas religiosas, que antes ocorriam em praças e terreiros locais, agora precisam concorrer com roteiros de turismo que buscam 'autenticidade' como produto. A reportagem acompanha as celebrações do Divino Espírito Santo em uma comunidade insular, onde práticas seções do rito permanecem sob responsabilidade de famílias cuja memória oral passou de geração em geração. Mestres e mestras explicam como a transmissão foi interrompida em momentos de crise, mas também como houve revitalização por meio de oficinas e programas apoiados por instituições culturais. Eles ressaltam que preservação é sinônimo de continuidade, e isso depende de respeito às agendas locais, não apenas de espetacularização para visitantes. Pesquisadores da área de antropologia e etnologia alertam para o risco de políticas que instrumentalizam a cultura para fins econômicos, sem garantir retorno justo às comunidades. A criação de roteiros turísticos deve incluir remuneração direta, gestão compartilhada e o direito de decidir o que, quando e como será apresentado. Casos de sucesso mostram modelos de turismo comunitário onde o controle das narrativas e dos ganhos fica nas mãos dos moradores. A matéria também investiga iniciativas de arqueologia comunitária que buscam reconstruir memórias históricas por meio do registro de espaços e objetos. Projetos colaborativos entre universidades e comunidades insulares têm catalogado saberes, músicas e receitas tradicionais. Esses arquivos servem tanto para fins acadêmicos quanto para fortalecer políticas públicas locais de educação e cultura. Entretanto, a sustentabilidade desses projetos depende muitas vezes de financiamento instável. Em entrevistas com gestores de secretarias de cultura e movimentos sociais, surge consenso sobre a necessidade de políticas locais duradouras. Editais de fomento, capacitação em gestão cultural e incentivos à economia criativa são apontados como medidas essenciais. Há ainda pedidos explícitos por infraestrutura básica: saneamento, acesso a serviços de saúde e transporte regular, condições que garantam qualidade de vida e possibilitem a continuidade das práticas culturais. Ao ouvir jovens de comunidades insulares, percebe-se um duplo potencial: a juventude pode tanto reforçar as tradições quanto reinterpretá-las. Projetos que conectam saberes locais a tecnologias digitais, por exemplo, têm permitido a criação de arquivos sonoros, vídeos e iniciativas de educação patrimonial que ampliam o alcance desses patrimônios sem esvaziar seu sentido comunitário. Por fim, a reportagem reafirma que a proteção do patrimônio cultural nas ilhas é uma questão multifacetada que exige diálogo entre ambiente, economia e memória. Preservar não é congelar, mas assegurar que comunidades tenham condições de transmitir e reinventar suas práticas, com autonomia e dignidade. As histórias recolhidas na Baía de Todos os Santos são um lembrete de que cultura viva depende de políticas integradas que reconheçam o valor social e simbólico desses territórios.

Sobre o Autor

Jornalista cultural e pesquisadora de patrimônios imateriais. Atua em projetos de preservação e documentação comunitária.